Sobre propriedade e necessidades

Estava pensando em vender meu iPad (se alguém se interessar, é um impecável iPad 2 branco, 64Gb 3G com três meses de uso enquanto estava nos USA. R$ 2000 (R$ 600 a menos do que um novo aqui, mais barato se levar em conta os acessórios que vão junto)). O motivo para isso não é que ele seja um dispositivo ruim, muito pelo contrário, o problema é ele ser bom demais. Com esta venda, abrirei mão de uma série de programas que comprei ao longo do tempo em que usei tanto este iPad 2, quanto o iPad original que possuía antes. São programas de edição de texto, programas de música, programas para organizar e manipular fotografias, programas para acesso remoto aos meus servidores. Todos programas simples, relativamente baratos individualmente, acho que o mais caro deve ter custado uns US$ 25, mas de valor final considerável quando vistos em conjunto.

O que me encucou neste processo de decisão foi justamente o fato deste valor investido no conjunto de aplicativos ter passado quase desapercebido. E que depois de analisado, tratei tais valores simplesmente como um custo específico e pontual para realizar determinadas tarefas (em alguns casos nem isso, apenas tinha o programa disponível caso fosse necessário), e não como um custo de aquisição de uma propriedade ou de um bem.

Sendo assim, porque é tão difícil nos livrarmos de certas coisas materiais que já cumpriram suas funções em nossas vidas? Porque é mais difícil abandonar um computador velho, que já não atende mais às nossas necessidades atuais? Porque perder tempo tentando vender tais objetos, quando o valor que podemos extrair deles é menor do que o custo em tempo necessário para compensar esta tentativa de venda? Existe alguém que poderia se beneficiar de uma doação, com esta doação tomando menos tempo do que levaríamos tentando vender? Claro que aqui não estou falando do iPad, que serviu a uma função e períodos específicos, mas ainda possui um alto valor de mercado que compense o tempo tentando vendê-lo.

O mais engraçado é que pensar este tipo de assunto, pensando agora no assunto, me leva a pensar que o problema de tanto acúmulo pode não ser o apego a estes objetos ou a vontade de recuperar pelo menos parte do que custaram originalmente. O problema pode estar mais profundo, escondido dentro de nós.

Por quê, em primeira instância, compramos tais objetos? Realmente precisávamos deles ou foi uma aquisição levada por simples consumismo ou vaidade? Ficando ainda no exemplo do computador velho, será que ele não atende mesmo as necessidades atuais, ou será que criamos novas necessidades para justificar a troca do computador que já possuímos? Estou escrevendo este texto originalmente em um caderno, com uma caneta! Preciso de um computador de última geração para transpor tais linhas rabiscadas para um site na internet?

E assim vai a mente, encadeando questionamentos existenciais em uma manhã de sábado que começou mais cedo que deveria. O motivo? Comi demais na noite anterior (jantar maravilhoso preparado pelo Tiago). Li há algum tempo que não devemos reclamar de ter comido demais. Perdi o link para a referência original a esta idéia. E antes que continue aqui, encadeando uma terceira linha de idéias, concluo com duas perguntas:

Em quê as propriedades digitais são diferentes dos objetos físicos, para abandonarmos com mais facilidade os primeiros? Bônus se você consegue se desapegar de objetos físicos e puder pôr em palavras o processo mental que lhe dá tal liberdade.

Porquê adquirimos tantas coisas que sabemos que não terão mais que um uso eventual e muito limitado? Como evitar a criação de “necessidades” de tais aquisições?

Já tenho meus rabiscos de resposta para ambas as perguntas, mas vou esperar pelos comentários antes de formular melhor tais idéias.

7 pensamentos em “Sobre propriedade e necessidades”

  1. Ai q difícil, Fabrício. Eu me livro de tudo (mas ainda assim adquiro sem necessidade, falo disso no outro parágrafo), não tenho paciência para vender, para negociar. Estou, no momento, negociando a venda de uma moto, como me irrita, mas isso eu não posso doar. Outras coisas eu doou mesmo, para desespero da minha mãe que quer ir bucar devolta. Uma vez eu comprei uma máquina de lavar roupa e doei o tanquinho, ela queria ir buscar pq enfiou na cabeça que eu ia precisar. Dei todos os móveis da minha antiga casa para minha irmã pq ia me mudar, esses dias mudei de casa e ganhei uma penca de móveis hehe O universo retribui. Estou enrolando para essa coisa de descrever o exercício mental. Vou dizer como pensei nos dois casos citados.

    Caso 1: eu tinha comprado a máquina nova, num queria nem ver o tanquinho na minha frente, eu tinha uma amiga precisando de um tanquinho e quis agradar, acho. Mas acho que o mais fundo é que não gosto de entulho, me faz mal ver coisas acumuladas sem uso.

    Caso 2: minha irmã ia casar e não tinha os móveis, eu ia ficar na casa da minha mãe para deixar o aluguel, as coisas não cabiam lá. Eu já odiei as coisas que ficaram, imagina se fica tudo, eu tinha de me livrar daquilo. Acho que coisas materiais me pesam, como se eu tivesse de cuidar, guardar, dar conta daquilo, sinceramente, muitas coisas somem e eu nem me dou conta.

    Agora vem o caso de evitar a criação de tais necessidades. Bem, tenho procurado escrever, me programar para o que preciso e não comprar fora disso, passado um mês do sentimento da necessidade, percebo que num era tão necessário. O mais importante é que me nego a parcelar as coisas, ou seja, eu tenho de me programar, assim num tenho tantas necessidades. Alguns anos de nome no Serasa me ensinaram a não comprar a prazo.

    Escrevi um livro…

    1. Oi Rosana,

      Eu não acho que seja ruim se livrar assim das coisas. Talvez justamente por ter dificuldade em me livrar das tralhas. Sendo que tralha, é tudo aquilo que não tem mais uso para mim, mesmo sendo quase novo, o que costuma ser o caso, porque além de ter dificuldade em me livrar, sou extremamente cuidado (neurótico seria a palavra certa) com minhas coisas.

      Abandonar ou vender as coisas velhas abre espaço para que coisas novas entrem em nossa vida.

  2. Nao compro coisas de grande valor,entao uso meus aparelhos eletronicos por no minimo 2,3 anos (celular e notebook) e tento vender sem mto esforco, senao, paciencia. As roupas q eu compro, que sao varias e baratas, passam por uma “analise” todas as estacoes e as que nao quero mais sao doadas mesmo.

  3. Olá Fabrício;

    Esse assunto veio a calhar ao momento que passo em minha vida.
    Mas assim, por um bom tempo comecei a aprender a ter o desapego em minha casa e na vida. Pra ser bem sincero sou até meio viciado em me livrar das coisas que não me são mais úteis, desde papéis, revistas, ou qualquer daquelas tralhas que vamos acumulando em casa. Comecei por aí. Aprendi a realmente a ter na minha vida coisas que são úteis e me tragam algum retorno. O problema com a tecnologia são as ligações que fazemos dela com o nosso ego pois é status termos o melhor celular ou o melhor computador para fazermos sempre as mesmas coisas! Como você disse no seu texto, é possível fazer o seu trabalho em um computador mais simples mas que geralmente temos a tendência de escolher o mais poderoso ou mais caro. E não que isso não esteja correto, desde que esse poder de máquina seja necessário para fazer o seu trabalho. No momento estou pensando em comprar um Galaxy com acesso ao Android para atualizar minhas redes e tal, mas isso depois de anos com um Nokia que nem câmera tinha. Quero ter um pois o acesso a redes no meu trabalho está dificultado, então há um sentido para isso…mas não tão forte que eu não possa atualizar minhas redes apenas quando estiver na frente do computador (O que seria mais correto) Mas como trabalho diretamente com a internet, fico prevendo essa necessidade mas lendo o seu texto quem sabe não seja hora de analisar esse ponto de vista novamente, será que é preciso mesmo?

    Até mais!

    1. André,

      Compra um iPhone. Ou melhor, espera final de setembro, que vão lançar o iPhone 5. E aí, se queres apenas estar conectado, compra um iPhone 3GS que certamente vai estar a preço de banana. Comunicação é necessidade profissional para quem trabalha com internet. Não é gasto, é investimento.

  4. Olá Fabrício. Somos muito apegados aos bens materiais. Ultimamente consegui mudar um pouco meu paradigma nisso. Só compro coisas quando necessário. Por exemplo, resistirei ao Iphone 5 enquanto meu Android phone satisfizer minhas necessidades. Ultimamente enfrentei uma grande batalha comigo. Comprei um novo notebook e meu antigo mac ficou parado… enquanto eu decidia como utiliza-lo… até que resolvi doá-lo ao meu sobrinho. Confesso que mesmo os 4000 reais que eu paguei na aquisição do note, não pagariam o sorriso e a gratidão daquele pequeno. Dei pra ele pois acho que ele está na idade de ter algo legal pra aprender a ter cuidado e responsabilidade. E está dando certo.

    Abraços

    1. Oi Aron,

      Há coisas que o dinheiro não compra, como notaste no caso do teu sobrinho.

      Já sobre o iPhone 4S, devo comprar este mês mesmo, pois vou aos USA e venderei o meu iPhone 4 aqui pelo valor que custará o novo lá. Não fosse esta oportunidade específica de ter sido lançado junto com minha viagem já programada, provavelmente não iria comprar tão cedo. Usei um iPhone 3G até gastar antes de comprar o 4 🙂

      Abração.

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