Osama, Obama, fatos, tragédias e suas relações conosco e com nosso dinheiro

No dia 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas vieram ao chão, aprendi algumas coisas importantes sobre como funciono sob stress emocional.

2001

O que estava acontecendo era demais para eu conseguir entender. Entendia os fatos em sí, mas a brutalidade, a proporção, a execução, tudo isso fez com que meu cérebro desligasse qualquer processamento lógico. Era apenas emoção, tentando aceitar o que tinha acontecido. Alguns meses antes estava planejando ir aos EUA. Ficaria na casa de um amigo que morava perto de Nova Iorque. Quando cairam as torres, tentei contato com ele e só consegui muitas horas depois. Ele então me disse que estava a trabalho na segunda torre, no quarto andar, enquanto caía a primeira torre. Se tivesse viajado para os Estados Unidos, teria aproveitado a oportunidade de ir junto com ele ao World Trade Center, mas como não estaria trabalhando, certamente iria ver a vista no topo do prédio. Sem chances de chegar ao solo a tempo.

Uns meses antes, a empresa onde trabalhava, uma startup de internet que recebia investimentos vindos dos EUA, sofreu com o estouro da bolha de internet e ficou sem recursos para continuar. Estava há seis meses sem receber e, com minhas reservas acabando, achei mais prudente cancelar a viagem. Alguns dizem que foi sorte. Outros chamam de providência divina. Eu apenas digo que:

Quando nos acontecem coisas ruins, geralmente há algo bom relacionado. Pode ser uma “sorte”, ou pode ser uma chance de aprender algo. Normalmente não temos ainda a capacidade de compreender as implicações disso, mas aprendi a aceitar as pequenas tragédias diárias e a tentar sempre buscar algum aprendizado delas.

Escapei da tragédia. Meu dinheiro, não.

Naquela época todo meu patrimônio estava investido em ações. Havia multiplicado meu dinheiro em poucos anos. Com um investimento inicial de R$ 3000, fiz o mesmo crescer para R$ 15.800 em apenas dois anos na bolsa de valores. Estava com ações em carteira que sabia serem bastante voláteis na época, mas não ficaria com elas muito tempo então não havia motivos para preocupação. A não ser, claro, se destruíssem a confiança do planeta de um dia para o outro.

Minhas ações despencaram de R$ 15.800 para apenas R$ 700 (não esqueci um zero, são setecentos reais mesmo). Só notei isso três dias depois, quando saí do estado de choque em que estava com a tragédia e lembrei: “minhas ações!”

Nada que possuímos é concreto. Tudo pode mudar de uma hora para outra. O mundo tem tantas variáveis em jogo que é impossível termos o controle de tudo. É impossível termos controle.

2011

Em 2010 visitei aquele amigo que citei na história anterior. Desta vez na Califórnia, do outro lado dos EUA. Fiquei pouco tempo no Silicon Valley, mas o suficiente para reacender a chama do que um dia havia sido meu sonho de nerd adolescente, morar no vale do silício, berço das empresas de tecnologia. Em março deste ano estava prestes a me mudar para lá para uma temporada de seis meses, uma espécie de mini-sabático, já que continuaria a tocar meus negócios de investimento em imóveis e consórcios imobiliários através da internet.

Poucas semanas antes da viagem recebo um convite irrecusável, com uma proposta de viagem ao Japão para duas semanas divulgando o investimento em consórcios e o investimento em imóveis para um grupo de 350 famílias de brasileiros que moram e trabalham lá. Prorrogo a viagem aos EUA por 12 dias e arrumo as malas para o Japão. Tudo corre bem nesta viagem, mas fico chateado de não ter conseguido ficar alguns dias a mais para aproveitar o lançamento de dois produtos eletrônicos que estava aguardando, uma máquina fotográfica Fuji X100 e o iPad 2.

Voltando do Japão, faço escala em Nova Iorque um dia antes do lançamento do iPad 2. UM DIA!!! Chego no Brasil e ao ligar meu celular, ainda em São Paulo, começo a receber mensagens perguntando se já havia voltado, se estava tudo bem porque a família estava preocupada… Entro no twitter e vejo do que estão falando. Saí do Japão exatamente um dia antes dos terremotos e tsunamis. Sem máquina fotográfica, sem iPad 2, mas com vida.

Osama, Obama e o nosso dinheiro.

Há coisas sobre as quais não temos controle, mas nem por isso devemos desligar o cérebro, deixar de planejar e deixar a vida simplesmente nos levar. Sim, as vezes não há o que fazer, é mais forte do que nós, como foi o estado de choque que fiquei com a queda das torres gêmeas. Porém outras vezes, simplesmente não nos damos conta das implicações de certos fatos, não por conta de algum bloqueio, mas porque apenas não paramos tempo suficiente para pensar. Tudo é tão corrido em nosso dia a dia, que acabamos não dedicando tempo para digerir as notícias do dia. Apenas as recebemos de maneira automatizada, sem realmente as processar. Em relação às notícias desta semana, você já pensou nas implicações que esta notícia tem para o mercado, para o ânimo dos americanos, para a percepção mundial sobre os Estados Unidos? Já pensou que implicações a morte do Osama traz para seu dinheiro e seus investimentos?

Não tenho bola de cristal, mas tenho algumas opiniões sobre o futuro da bolsa de valores no Brasil. Você investe em ações? Eu acho que nossa bolsa vai cair nos próximos meses. Tenho uma teoria sobre este assunto. Com o aumento da confiança na economia americana e as melhoras dos fundamentos atreladas a isso, muito dinheiro que hoje está em países emergentes, leia-se, Brasil, irá voltar aos EUA, derrubando com isso o mercado altamente inflado que vinhamos tendo nos últimos anos. Acho que a morte do Osama irá causar na população norte-americana uma reação do tipo “nós conseguimos realizar tudo o que nos propomos”. Na minha opinião, correções fortes virão. E já estou me preparando para aproveitar as barganhas.

E você, o que acha? Desculpe misturar tantos assuntos em um só texto, mas você já me conhece, sabe que meu cérebro nunca fala de algo sem pensar em suas diversas interrelações. E no final das contas, quem faz as melhores relações entre fatos aparentemente desconexos, acaba agindo mais cedo e aproveitando as melhores oportunidades 🙂

9 pensamentos em “Osama, Obama, fatos, tragédias e suas relações conosco e com nosso dinheiro”

  1. Adorei o texto Fabrício.
    Gosto de assuntos interrelacionados, referências, referências e referências…. me dou bem com gente assim hehehe
    Ainda bem que vocês sempre escapam das tragédias, assim tenho mais tempo para aproveitar vocês e o modo que vocês vêem a vida.
    Sucesso!
    😉

    1. Oi Francine,

      Fico feliz de saber que gostaste. Cada vez que começo a escrever algo e milhares de outros assuntos começam a querer espaço no texto, lembro de ti. Great minds thinks alike 🙂

      Beijo.

  2. Ótimo texto. Só não acho que os americanos (e o resto do mundo) estejam confiantes. Acho que estão todos receosos, não?

  3. Olá…

    Nossa,quando as torres gemeas caíram eu tinha 10 anos e fiquei sem entender nada,só senti medo.
    Felizmente ao longo da vida sempre consegui identificar coisas boas que “vieram” de coisas ruins.Hoje,com 21 anos,tive alguns problemas que me fizeram ver que não tenho controle sobre nada,mas cheguei a conclusão de que vale a pena planejar.
    E finalmente,espero aprender a ligar fatos, bem como tu fez.

    Abraço!

    1. Aline,

      Acredito que sempre vale a pena planejar, mas também acredito que não devemos planejar demais, por ser impossível sabermos de tudo que pode acontecer. O mais importante para mim, no entanto, é não sentir frustração quando as coisas planejadas saem diferente do que imaginamos. Sobre isso, estou passando pela situação neste momento.

      Planejei morar seis meses nos USA, vendi o carro um pouco antes e com a viagem ao Japão, adiamos a ida e ficamos mais tempo aqui sem carro. Na nossa volta, outros problemas nos mantiveram no Brasil mais alguns dias, que se tornaram mais algumas semanas. Aluguei um carro e resolvi a situação temporariamente, mas aluguei por um período e quando vi, mais alguns fatos nos manterão aqui um pouco mais de tempo.

      A volta está marcada com data certa, final de agosto, mas os motivos que tinhamos para voltar nesta data, neste momento, deixaram de existir. Podem voltar a estar presentes, mas hoje, não estão. Independente disto, não ficaremos mais os seis meses originalmente planejados. E para um periodo de apenas três meses, os planos originais deixam de ser totalmente válidos.

      Hoje, estamos replanejando o que faremos. Os seis meses de estudo de inglês do plano original foram por água abaixo, então estamos avaliando o peso dos outros benefícios que esta viagem traria, para dar mais ênfase nos que podemos obter neste novo periodo de apenas três meses.

      Frustração? Não. Apenas um exercício de planejamento novo.

      Como escreveu o Pinheiro, “coisa boa, coisa ruim, quem sabe?”

  4. Pois é Fabricio, isso me lembra da historia do “Coisa boa, coisa ruim,
    quem sabe?” É mais ou menos assim: um fazendeiro junta todo o seu
    dinheiro prá comprar um cavalo de raça, sangue puro. Os vizinhos o
    parabenizam pela boa compra. Ele responde: “coisa boa, coisa ruim,
    quem sabe?”.

    No dia seguinte o cavalo foge e os vizinhos vão lá consolá-lo pela
    perda. Ele então responde: “coisa boa, coisa ruim,
    quem sabe?”

    Dez dias depois o cavalo retorna com mais dez cavalos puro-sangue. Os
    vizinhos então o parabenizam novamente. E ele responde: “coisa boa, coisa ruim,
    quem sabe?”

    No dia seguinte o filho do fazendeiro vai andar no cavalo, cai e
    quebra a perna. Os vizinhos o consolam e ele responde: “coisa boa,
    coisa ruim, quem sabe?”

    Na semana seguinte o país entra em guerra e todos os jovens são
    convocados, menos o filho do fazendeiro que estava de perna quebrada.

    “Coisa boa, coisa ruim, quem sabe?”

    O fato é que não sabemos se temos sorte ou azar. Estamos sempre
    tendo um pouco dos dois. Mas acredito que temos muito mais sorte do
    que azar. Basta ver que estamos vivos, com saúde e sempre melhorando o
    que fazemos.

    Boa sorte e boa viagem.

    Abraço

    1. Pinheiro,

      Acho que já tinha escutado esta história, mas não lembro se a tinha registrada em algum lugar. Obrigado por compartilhar ela aqui conosco.

      Tenho a mesma convicção que tu tens, acredito termos mais sorte do que azar. Não precisamos procurar muito para ver o quão privilegiados somos em relação ao todo.

      Abraço e nos vemos muito em breve.

  5. é,a vida nos obriga a improvisar de vez em quando,mas acho q ela faz a mesma
    coisa por nós também.Uma frase mto boa é “Quem quer,arruma um jeito.Quem não quer,arruma uma desculpa.” Boa sorte com a tua viagem!

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