Empreendedores e rentistas

Temos insistido que o desenvolvimento é um “estado de espírito”. Ele depende fortemente de uma liderança política capaz de acender o “espírito animal” dos empresários. É isso que os leva a assumir os riscos de novos investimentos físicos que maturam em cinco ou seis anos sem nenhuma garantia de retorno a não ser a sua própria crença no comportamento futuro da economia. No caso brasileiro, é fácil entender a diferença entre esse “empreendedor” e o “investidor financeiro”, o “rentista”, que tem aversão ao risco e não produz crescimento diretamente.

O “empreendedor” move-se, basicamente, pela necessidade interna de “construir alguma coisa” e, certamente, espera também um resultado econômico positivo da sua atividade. Seus projetos dependem menos de um cuidadoso cálculo econômico do que de sua “intuição”. Boa parte da remuneração que recebe é a satisfação da obra concluída. Este é o espelho mágico que transforma “sonhos” em realidade. Ele aparentemente viola as “leis da economia”, como prova o seguinte: a taxa de retorno do capital financeiro no Brasil é hoje da ordem de 13% de juros anuais para aplicações de 30 dias, sem qualquer risco. Pois bem: não existe projeto industrial ou agrícola que sustente tal taxa de retorno no longo prazo. Por outro lado, no Brasil, a taxa de juro real de curto prazo é maior do que a de longo prazo, o que deveria levar o agente “racional” a retardar o seu investimento, assumindo provisoriamente o papel do “rentista”.

O “rentista” tem ainda outras vantagens, porque vive da necessidade do governo de sustentar uma dívida pública que representa 52% do PIB. A administração tem que tratar essa dívida com o maior carinho, pois o seu financiamento é feito pela intermediação bancária das poupanças de milhões de indivíduos. Qualquer extravagância regulamentar do governo é paga com a resistência ao financiamento que tem de ser contornada pelo aumento da taxa de juros. O mesmo acontece se houver um desequilíbrio fiscal permanente. Os interesses dos verdadeiros “rentistas” (que somos todos nós, os depositantes nos bancos) são defendidos por imensas entidades financeiras, que, obviamente, cobram, e bem, por seus serviços, apropriando-se de parte da diferença entre juro ativo e juro passivo.

Paradoxalmente, o verdadeiro criador de riqueza, o “empreendedor”, aquele para quem parte da remuneração é psicológica (satisfação decorrente do seu poder criador), é muito mal tratado pelo governo. Enquanto o “rentista” nada pede, a não ser uma taxa de juro compatível com a relação dívida/PIB, o “empreendedor” quer maior mobilidade para o mercado de trabalho, maior disciplina fiscal, moderação nos impostos, salário real, taxa de juro real e taxa de câmbio real que lhe dará a isonomia competitiva. Enfim, ele é um “perturbador da ordem”!

Não é por outro motivo que o sonho de longo prazo de todos os governos parece ser o de eliminar os “empreendedores” e convencê-los a serem “rentistas”…

Pena para o desenvolvimento!

Escrito por Antonio Delfim Netto.