Assuma o risco

Por Augusto Pinto

Quem de vocês já não escutou a seguinte desculpa esfarrapada para explicar o medo e a falta de agressividade: “Eu tenho os pés no chão e não dou um passo maior que as pernas”. Como já sou um cinqüentão, com muitas batalhas vividas, posso ousar discordar: vivo dando um passo maior que as pernas e isso funciona na maioria das vezes (o que é ótimo, para quem não é onisciente). Não entendam mal, pois dar um passo maior que as pernas não significa ser irresponsável. Significa assumir decisões, encarar o desconhecido. Vocês acham que Colombo foi irresponsável? Provavelmente não, pois deve ter planejado sua aventura com a maior quantidade de detalhes possível.

Até onde podemos arriscar sem quebrar a cara? Para responder a essa pergunta, só com outra: qual é o objeto de nosso risco? Emprego, ganhar ou perder dinheiro, credibilidade? Para melhor avaliarmos a questão, alguns aspectos devem ser levados em consideração:

Qual a sua idade? Arriscar aos 25 anos é obrigação, já que nessa idade qualquer decisão é arriscada pela falta de referências. O risco aos 40 deve ser calculado, já que a experiência permitirá uma avaliação correta das alternativas, mas o que se pode perder já é significativo. Após os 50, o risco deve ser marginal: arrisca-se a sobra, aquilo que calculadamente se pode perder.

Quais as implicações do erro de avaliação?

Qual é o prêmio pelo risco tomado?

Além de sua experiência, você tem informações suficientes para escolher a melhor alternativa?

Uma empresa sem cultura de riscos é uma empresa de alto risco. Quando você não arrisca, o mundo o faz por você, já que as decisões sempre terão de ser tomadas. Todas as entidades vivas (plantas, animais, homens, equipes, empresas, países) vivem em ciclos, com fases de crescimento, maturidade, apogeu e declínio. Você sabe o que vem após o declínio? Se respondeu a morte, errou: depois do declínio surge o renascimento, a menos que você rejeite as mudanças impostas nessa fase. Em outras palavras, renascer (começar em um novo emprego, abrir novo negócio etc.) implica riscos. Não assumi-los, sim, implica morrer (desemprego, falência, frustração).

Cabe ainda mais um comentário: uma vez tomada uma decisão, enterre as suas preocupações e as suas dúvidas. Pense como um pára-quedista: depois de pular, o melhor a fazer é curtir a paisagem. Não tem coisa mais chata nem mais desanimadora do que alguém que tomou uma decisão arriscada no trabalho e depois disso vive com uma “nuvenzinha sobre a cabeça”. Como os olhos são o coração da alma, esse indivíduo transmitirá insegurança e desmotivação por onde passar. Tratando-se de um “soldado raso”, será considerado um chato medroso, mas se for um “general de quatro estrelas” certamente espalhará pânico entre a tropa. Lembre-se: o risco, quando bem calculado, é o grande tempero desta vida.