Amigo Rico: Capítulo 2

Para quem pegou o bonde andando, eu explico: estou escrevendo um livro. O objetivo deste livro é ensinar um caminho simples e efetivo para qualquer pessoa alcançar a independência financeira, não importando quanto a pessoa ganha. São várias lições, explicadas no transcorrer da história. Como o objetivo é primeiramente ensinar, e só depois, transformar em livro impresso para vender, estou publicando ele para todos poderem ler imediatamente, à medida em que vai sendo escrito. Dessa forma, os leitores podem enviar sugestões e críticas que tornem o livro melhor e facilitem a compreensão dos ensinamentos.

O velho Jorge dizia: ‘olhe para o céu’!

Vivia em Porto Feliz um homem muito rico. Todos na cidade o conheciam, devido a sua grande generosidade. Muitas de suas obras eram feitas sem esperar nada em troca, apenas para ajudar os mais necessitados. Sua família era também muito feliz. O filho, estudante de administração de empresas, havia se formado há alguns anos. A esposa vivia no luxo com que sempre sonhou, coberta de jóias e roupas finas. Este homem se chamava Ricardo e tinha muitos amigos. Tantos, que na cidade o conheciam como Amigo Rico.

As pessoas da cidade achavam que ele sempre fora rico, mas essa não era a realidade. Muito jovem, chegou à capital sem nada nos bolsos. Ainda no ponto de parada dos ônibus (não havia estação rodoviária naquela época), pensava no que poderia fazer para ganhar uns trocados. Viu vários garotos da sua idade, todos com suas caixinhas de madeira sobre os ombros. Eram engraxates, coisa que ele ainda não conhecia. Em sua cidade natal a maioria das pessoas nem mesmo sabia o que eram sapatos.

Falando com os novos amigos, descobriu que havia um velho marceneiro que morava perto dali. Era conhecido nas redondezas como “o velho Jorge”, ou ainda como “o marceneiro”. Esse homem já havia feito tudo que se possa fazer com madeira. Ninguém na cidade sabia exatamente como, mas apesar de não trabalhar mais, vivia uma vida confortável, em uma bela mansão. Nos fundos desta, uma pequena marcenaria era sua diversão. Após anos como marceneiro profissional, agora passava seu tempo construindo pequenos caixotes de madeira, que doava aos garotos pobres que batiam à sua porta. Era algo que lhe dava um imenso prazer, saber que podia ajudar “um pequeno”, como costumava chamar os jovenzinhos. Além disso, também fornecia algumas latinhas de graxa e duas ou três escovinhas. Assim, seus pequenos podiam iniciar um trabalho digno e ajudar no sustento de suas famílias.

No entanto, não era qualquer um que ganhava os caixotes. O velho estabelecia algumas regras. Os garotos deviam estar matriculados na escola e tinham que lhe mostrar as notas todos os meses. Tratava-os como filhos, já que nunca casou nem constituiu família. Os meninos gostavam muito dele. Para eles, era visto como um mestre. Um professor das lições que eles nunca esqueceriam.

Ninguém na cidade entendia muito bem quem era o velho Jorge. Os grandes executivos não conseguiam compreender como podia viver em uma casa tão grande e luxuosa um velho marceneiro aposentado. Uma mansão maior que as que eles próprios conseguiriam comprar. E como podia ser tão querido por tantos garotos pobres. Por todos esses garotos que lhes lustravam os sapatos e não cansavam de dizer: “Obrigado senhor por seu pagamento. Que muitos cofrinhos possam transbordar em sua vida.”

“Transbordar o cofrinho” era uma frase bastante ouvida naqueles tempos. Mas essa é uma outra história, para ser contada em outro momento. Voltemos ao ponto em que havíamos parado.

Certo dia, batem à porta de Ricardo alguns antigos colegas do tempo de escola. Muitos não se viam a algum tempo, tinham todos vidas muito agitadas e cheias de compromissos. Todos eles, apesar de terem obtido algum sucesso na vida, não estavam satisfeitos com o resultado de seus esforços. Trabalhavam muito e não viam o dinheiro render. Alguns possuíam casas de praia, outros moravam em apartamento próprio, mas a maior parte deles ainda precisava alugar um cantinho para chamar de lar. Praticamente todos tinham um carro na garagem e o financiamento deste nas contas mensais.

Ricardo recebeu a todos com muita cordialidade. Sua casa era gigantesca e ele adorava receber os amigos. Muitos diziam que ele passava o tempo todo fazendo isso, recebendo amigos e patrocinando grandes festas. Estas apareciam sempre na mídia local. Já suas obras de caridade, as creches que construía, as doações que fazia com freqüência, não eram tão interessantes para serem divulgadas. Trabalhava muito, mas de maneira inteligente. Chegou a um ponto onde o dinheiro é que trabalhava para ele. Os amigos não enrolaram muito, foram direto ao assunto que os trazia ali.

– Ricardo, – começou a falar Marcelo. – a vida parece ter sido muito boa contigo. Enquanto nós temos que trabalhar durante o dia para ter o que comer à noite, você se tornou um homem muito rico, dono de várias propriedades espalhadas por todo o nosso país e até ao redor do mundo. Mas isso nem sempre foi assim. Lembramos de quando éramos pequenos e estudávamos juntos. Você nunca foi muito diferente de nós. Tirava notas medianas, estudava tanto quanto nós, não era nem melhor nem pior que qualquer outro nos esportes. Já adulto, se tornou um homem sério e respeitador. Trabalhou bastante, mas acredito que não mais que os outros aqui presentes. Por que então a escolha do destino caiu sobre você? Por que você pode aproveitar todas as coisas boas da vida e nós, que devíamos ter os mesmos direitos não podemos?

Ricardo sabia que ia ser uma longa conversa. Estava acostumado a esse tipo de pergunta. Já sabia de cor a resposta, mas era muito raro alguém ir mais fundo na busca do motivo real dessa diferença entre o que uns e outros conseguiam.

– Meus amigos, a vida é como um jogo. Tem certas regras a serem aprendidas. Tem gente que aprende o jogo da vida desde cedo e outros que demoram anos ou nunca aprendem. O tabuleiro e as peças que todos usamos são os mesmos, mas muitos jogam sem ter aprendido as regras. Ou pior ainda, jogam de acordo com as regras erradas. Se vocês não estão conseguindo obter o que desejam, é simplesmente por que estão jogando o jogo errado, ou por que ainda não aprenderam as regras necessárias para se ganhar este jogo. Talvez vocês até saibam as regras e não as sigam. Se for este o caso, nada do que eu falar vai poder ajudá-los.

“O ‘Jogo da Vida’ não garante o futuro de ninguém. Muito pelo contrário, a grande maioria das cartas traz a ruína para quase todos os que foram contemplados com dinheiro que não ganharam por merecimento. Veja o que acontece com a maioria das pessoas que ganham na loteria. Saem por aí comprando carros luxuosos e apartamentos maiores que suas necessidades, sem nem imaginar o custo que terão para mantê-los depois. Fazem festas e banquetes para gente que nem conhecem, apenas para poderem se ‘integrar à alta sociedade’. Se tornam gastadores compulsivos, comprando relógios, canetas e outros objetos caríssimos em quantidades muito maiores que o necessário para seu uso pessoal. Outros fazem ainda pior. Por medo de perder o que ganharam e saber que não serão capazes de repor, escondem a fortuna de tudo e de todos, não aproveitando em nada a vida que poderiam ter. Vivem uma vida miserável, triste e pobre.”

“Provavelmente ainda existam pessoas que ganham dinheiro fácil e o aumentam, sem deixar de aproveitar os luxos que este pode comprar. Mas é bem mais difícil ouvir falar destes, quanto mais, de achar um na rua. Vejam as pessoas que herdam dinheiro, digam que não é isso que geralmente acontece.”

Os amigos concordaram com Ricardo. Alguns ainda comentaram sobre os ganhadores de prêmios em alguns programas de TV. Pessoas que se tornaram celebridades da noite para o dia. Em poucos meses, não havia sobrado nada do prêmio ganho. Perguntaram então como Ricardo havia conseguido construir sua fortuna.

– Alguns de vocês conhecem minha história de garoto. Para resumir aos que não conhecem, cheguei na capital vindo do interior. Tinha dez anos. Meus pais haviam falecido e tudo que me restou na vida eram algumas galinhas e um casal de patos. Vendi os bichos para uma família vizinha e usei todo o dinheiro obtido na venda para comprar minha passagem de ônibus. Não foi fácil pensar no que poderia me acontecer quando chegasse à capital. Naquele tempo, a viagem durava alguns dias. As estradas eram bastante precárias. Para comer, tinha algumas frutas que havia colhido pouco antes de partir. Chegando na capital, conheci vários garotos que trabalhavam próximos ao ponto de chegada dos ônibus. Eles me falaram de um velho marceneiro que os havia ajudado quando eram menores. Disseram-me para procurar por ele, que com certeza eu iria agradecer por conhecer pessoa tão boa.

“Fui até onde me informaram que ele morava, mas achei que tinha errado o local. Estava procurando por uma casinha humilde, uma pequena marcenaria. Procurei por algum lugar com ripas de madeira próximas. E nada. Apenas aquela enorme mansão. Não tinha coragem de atravessar o extenso jardim. Certamente aqueles garotos haviam me aplicado um trote. Um senhor idoso, vendo minha imobilidade diante de tamanha grandeza, me pegou pela mão e disse: – Venha garoto, faça um lanche conosco enquanto me conta o porquê de estar aqui.”

“Encurtando a história, o velho homem se chamava Jorge, e seu passatempo era fazer caixotes de engraxate que doava para os meninos que aceitassem a condição que ele impunha: freqüentar a escola.”

“Tendo começado a trabalhar, passei a observar as pessoas e todas as coisas boas da vida, coisas que deixavam as pessoas felizes. Descobri que a riqueza potencializava a felicidade das pessoas. Que com riqueza, muitas outras coisas se tornavam possíveis. Assim, passei a notar que a riqueza permitia a compra de carros luxuosos. Com riqueza, podia-se morar em uma enorme mansão. Poderia possuir jóias e fazer viagens, comer as melhores frutas e os mais maravilhosos doces. Com muito dinheiro é possível fazer todas essas coisas e muito mais.”

“E quando notei isso, decidi que iria querer a minha parte. Não iria ficar à margem, observando com inveja o que os outros tinham. Não me contentaria em vestir uns trapinhos quando poderia usar roupas bonitas. Nunca seria um homem satisfeito com apenas o suficiente para viver razoavelmente. Queria mais, muito mais. Queria fazer parte da alta sociedade e de suas festas animadas, queria rodar o mundo. Queria uma bela família vivendo com conforto em uma grande casa. Queria um sítio, um chalé nas montanhas e uma casa de praia. Queria tudo que a vida pudesse me proporcionar, tudo que pudesse sonhar.”

“Mas era apenas um pequeno engraxate. Dono de meu próprio nariz e responsável por minha subsistência, mas apenas um engraxate. Com certeza não iria herdar nada, visto que minha família era formada por apenas uma pessoa, eu próprio. E não sendo nenhum gênio, como vocês mesmos me disseram a pouco com tanta franqueza, decidi que, se realmente quisesse conseguir tudo o que desejava, poderia contar apenas com meus próprios esforços.”

“Teria que usar o tempo a meu favor. Isso eu tinha de sobra. Estudava de manhã e trabalhava todas as tardes. Me sobravam as noites, para tentar descobrir o que era necessário para enriquecer. Não tinha TV nem rádio, logo, não perdia meu tempo em casa. Todos tem tempo de sobra para usar da maneira que melhor nos convém. A maioria de vocês gasta o tempo que têm de maneira tola o suficiente para não ficarem ricos. E como vocês me disseram, não têm bem algum para mostrar aos outros, mesmo após anos de trabalho duro.”

“Outra coisa muito importante foi o estudo que tive. Devo sempre agradecer ao velho Jorge. Quando aceitei a condição imposta por ele para poder ganhar meu caixote de engraxate, tomei a melhor decisão de minha vida. Mas apenas o estudo formal não era o suficiente. Resolvi me dedicar a descobrir como é possível acumular dinheiro em grande quantidade. E quando descobrisse isso, iria tornar esta a minha maior prioridade da minha vida. Lembrei de uma coisa que meu pai falava com freqüência: ‘Nunca fui à escola, tive que aprender com a vida.’ Eu ainda contava com o estudo formal para me ajudar, agora, precisava aprender mais com a vida, com a experiência das outras pessoas.”

“Todos os dias após as aulas, pegava meu caixote e saía por aí atrás dos sapatos para engraxar. Enquanto lustrava o couro, sempre puxava conversa com os clientes. Algum deles poderia saber o que eu desejava aprender com tanto ardor. Mas os meses se passavam e apesar de meus clientes serem pessoas distintas, com belas roupas e sapatos, todos reclamavam das mesmas coisas. Como seu dinheiro não era suficiente para um carro novo, para trocar de apartamento, para comprar o presente que a filha pedira.”

“Assim que fiquei um pouco mais velho e já sabendo ler e escrever corretamente, arranjei um emprego de meio turno como atendente em uma lojinha de roupas. Era um bom emprego, conseguia pagar o aluguel de um quartinho em uma pensão, pagava minha comida e roupas. Nem lembro mais em que gastava, mas lembro que no fim do mês tinha o dinheiro contado certinho para passar os últimos dias.”

“Ao fim dos anos de escola, e já com mais conhecimentos que me permitiam conseguir um emprego melhor, fui conversar com o velho Jorge. Agradecer por tudo que ele fez por mim quando eu mais precisei. Lembramos do dia em que cheguei à porta de sua mansão e não acreditava que ali morava um marceneiro. E falamos da importância que o estudo tinha para as pessoas. Prometi que sempre que pudesse iria tentar ajudar as pessoas da mesma forma que ele me ajudou.”

“Quando ia me despedir de Jorge, já na porta de sua casa, uma luz brilhou em minha mente. Como eu nunca havia pensado nisso. Estava na minha cara por anos e anos e eu nunca tinha me dado conta. O velho Jorge era a resposta para minha mais profunda dúvida. Não perdi tempo. Olhei com carinho para ele e perguntei de repente: ‘Seu Jorge, o senhor possui esta bela mansão, tem dinheiro suficiente para não precisar trabalhar e ainda pode ajudar muitos garotos como eu. O senhor parece ser muito rico e nunca o ouvi reclamando como a maioria das pessoas faz, dizendo não ter o suficiente para isto ou aquilo. Existe algum segredo para se conseguir isto? O que devo fazer para conseguir ser rico como o senhor?’ ”

“Ele respondeu sem pensar. Parece que estava esperando a vida toda por alguém que quisesse saber isso. ‘Pequeno, durante muitos anos ajudei centenas de garotos como você. Nunca tive família para cuidar, então me sentia muito feliz na companhia de vocês. É uma sensação muito boa nos sentirmos úteis. É maravilhoso ter para quem contar nossas histórias, principalmente quando começamos a envelhecer. A língua começa a ficar mais solta e nossas palavras fluem com mais facilidade. Você é um rapazote que presta atenção em tudo, sempre interessado em aprender mais. É bom quando um jovem faz perguntas aos mais velhos. Recebe em troca o conhecimento adquirido em muitos anos. São poucos os garotos que se dão conta que esta experiência pode lhes economizar anos de aprendizagem. O conhecimento acumulado pelos mais velhos deve servir de guia a todos os que estão começando, como as estrelas no céu ajudam os marinheiros a encontrar seu rumo. Mas a maioria dos jovens de hoje não costuma olhar para o céu.’ ”

“E continuou, falando pausadamente, ‘Escute bem o que vou lhe contar garoto. O que vou dizer é uma das maiores verdades existentes sobre o dinheiro. É a diferença entre ser um marceneiro maltrapilho que nunca poderia deixar de trabalhar, e ser um marceneiro milionário, que não precisa se preocupar mais com dinheiro.’ ”

” ‘Descobri como poderia deixar de me preocupar com dinheiro quando decidi que guardaria uma parte de tudo o que ganhasse em minha vida. Decidi que a coisa mais importante seria pagar primeiro a mim mesmo, depois, aos outros. ”

“Ficou me olhando com um sorriso de satisfação. Ele realmente esperou muito tempo até alguém fazer-lhe esta pergunta. Mas não disse mais nada além disso.”

” ‘Só isso?’, perguntei incrédulo.”

” ‘Foi o suficiente para eu conseguir me aposentar antes de muitos outros nesta cidade. Mesmo ganhando muito menos dinheiro do que a maioria das pessoas daqui’, respondeu ele.’ ”

” ‘Mas tudo o que eu ganho não é meu?’, perguntei.”

” ‘Claro que não’, respondeu ele. ‘Quando compra roupas, quando paga o aluguel, quando se alimenta. Está pagando os outros. Ninguém vive sem ter despesas. Onde está a sua parte do que ganhou no mês passado? E do que ganhou durante todo o ano anterior? Se guardasse para si mesmo dez por cento de tudo o que ganha, quanto teria daqui a dez anos?’ ”

“Sempre fui bom em matemática. A resposta veio na hora: ‘o equivalente a um ano de trabalho.’ ”

” ‘Quase isso, garoto. Se tivesse guardado dez por cento de tudo o que tivesse ganho durante dez anos, teria ainda o rendimento da aplicação desse dinheiro durante o período. E mais que isso. Cada moeda gerada a partir das suas economias se torna ela própria uma nova geradora de rendimentos. Para se tornar um homem rico, tudo o que economizar deve ser utilizado para lhe proporcionar toda a riqueza que você deseja.’ ”

” ‘Não pense que estou brincando com você. Nesta simples verdade sobre o dinheiro está escondida uma imensa fortuna. Basta fazer uso deste ensinamento e um novo mundo se abrirá para quem entender isso. Uma parte do que você ganha é exclusivamente sua e de mais ninguém. Pelo menos, dez por cento, mesmo quando o valor é pequeno. Pode ser mais. Algumas pessoas guardam o valor que recebem no décimo terceiro salário para ajudar a aumentar o colchão de segurança formado por esse dinheiro. Sempre pague primeiro a si mesmo. Não compre roupas ou equipamentos que custem mais que o que possa pagar com seus rendimentos. Lembre-se sempre de separar o suficiente para sua alimentação, sua moradia, para ajudar os mais necessitados.’ ”

” ‘A árvore de riqueza é uma imagem que pode ser usada para lembrar-lhe que basta uma pequena semente para fazer nascer as maiores fortunas. E quanto mais fielmente alimentar e regar essa árvore com economias constantes, logo chegará o dia em que poderá se abrigar na sombra de sua bela árvore da fortuna. Lembre-se sempre disto, uma pequena semente se transforma em uma grande árvore.’ Enquanto falava, apontava para um enorme eucalipto plantado nos fundos de sua mansão.”

“Pensei bastante em tudo que meu velho protetor havia dito. Fazia bastante sentido, afinal, havia funcionado para ele, um marceneiro que morava em uma mansão. Só tinha uma forma de descobrir, devia tentar por conta própria. Durante todos os anos de espera para descobrir este segredo eu havia me prometido que o poria em prática desde o primeiro dia em que o conhecesse. Essa era a hora de começar. No fim do mês, ao receber meu salário, retirava dez por cento e depositava em uma caderneta de poupança. Após três meses fazendo isso, notei que continuava levando a mesma vida de antes. A diferença que eu separava não fazia falta nos meus gastos mensais. O que passou a acontecer com freqüência era a vontade de utilizar a poupança adquirida para comprar as coisas boas da vida. Um bom perfume ou um relógio bonito. Mas todas as vezes consegui manter meu objetivo principal. Ao final de um ano, tinha conseguido guardar dez por cento de tudo o que havia ganho. Tinha algo para mostrar. Havia enchido o cofrinho o suficiente para ele transbordar. Finalmente começava a fazer sentido a historinha que Jorge nos contava. Ele dizia que devíamos colocar em nossos cofrinhos dez moedas, toda noite. E que na manhã seguinte, só poderíamos tirar de lá nove moedas. Perguntava então o que aconteceria depois de algum tempo. Todos sabíamos a resposta: transbordaria o cofrinho. Ele dizia para falarmos isso para nossos clientes, sempre que nos pagassem o valor devido. Dizia que alguns desses clientes iriam nos agradecer muito algum dia.”

Os amigos ouviram tudo atentamente. Sabiam que Ricardo não começara a vida com dinheiro, mas não imaginavam que tinha passado por tantas dificuldades. Ficaram ainda mais interessados na história, imaginando como aquele garoto pobre, que chegou na cidade sem nem o que comer, conseguiu subir na vida com velocidade meteórica. Conseguiu vencer cedo o jogo que eles ainda não haviam aprendido a jogar. Ricardo chamou um empregado, que serviu suco e lanche aos amigos. Continuou então a contar o início de seu crescimento.

“Quando encontrei novamente o velho Jorge, caminhando no centro da cidade, muita coisa já havia acontecido. Falei para ele de como havia conseguido guardar um ano inteiro de economias. Contei como venci a vontade de gastar o dinheiro em artigos que desejava, pensando no resultado final. Para isso, lembrava de uma frase de meu pai: ‘um pequeno prazer que não tens hoje, pode se tornar um grande prazer amanhã.’ Jorge me perguntou se tinha sido difícil viver com dez por cento a menos do que estava acostumado. Não tinha sido nada difícil. Foi até mais fácil do que imaginei. Contei então como havia investido o dinheiro, para fazer ele crescer mais rapidamente. Um amigo publicitário soube de uma ótima oportunidade para abrir uma franquia de lanchonete ainda não existente em nossa cidade. Mas não tinha o dinheiro necessário. Emprestei o dinheiro e me tornei sócio da lanchonete. Eu entraria com o dinheiro, ele entraria com o trabalho.”

Enquanto falava, Jorge balançava a cabeça negativamente. Não estava entendendo sua reação. Afinal, ele me ensinou que devia guardar uma parte do que ganhasse para mim. E que devia aplicar esse dinheiro de forma a permitir que ele se multiplicasse e gerasse mais dinheiro ainda. Quando acabei de contar do meu novo empreendimento, Jorge desatou a falar. ‘Garoto, sinto lhe dizer, mas arrancou sua árvore de dinheiro pela raiz. Que burrice enorme você fez. Um ano inteiro de economias jogadas pelo ralo, como se fosse lixo. De que adianta passar tanto tempo juntando o dinheiro se na hora de fazer ele crescer, você o joga ao vento? Todos precisamos aprender, mas me explique porque confiar nos conhecimentos de um publicitário sobre o mercado de lanchonetes? Quando quer comprar um carro, vai a uma imobiliária? E quando quer saber o valor de uma jóia, por acaso pergunta ao zelador do seu prédio? Foram-se suas economias. Não voltam mais. Mas não desanime. Comece de novo. E quando precisar de conselhos sobre imóveis, pergunte a um corretor. Quando quiser saber sobre livros, peça ao dono da livraria. Os conselhos são dados de graça, mas só se deve guardar os que pareçam ter valor. Quem aceita conselhos sobre suas economias daqueles que são inexperientes nesse assunto, pagará com essas mesmas economias para provar a falsidade da opinião dos outros.’ Dizendo isso, Jorge continuou seu caminho.”

“Acabou acontecendo o que Jorge previu. Meu amigo publicitário não previu várias despesas que teríamos com a lanchonete. Não quis contratar um contador, confundia suas despesas pessoais com as despesas da pequena empresa. Comprava os produtos sem verificar a validade dos mesmos e com freqüência tínhamos que jogar as coisas fora. Os clientes também não pareciam existir, pois o ponto que escolhemos não tinha muita visibilidade. Mas seguindo o conselho de Jorge, mais uma vez comecei a economizar. Até mesmo, por que estava acostumado a viver com um pouco menos do que ganhava. Isso havia se tornado um hábito, e não representava nenhuma dificuldade.”

Mais um ano se passou até cruzar novamente com o velho Jorge. Nunca o havia visto no restaurante em que estava almoçando, mas nesse dia, lá estava ele. Sentamos na mesma mesa e ele começou a conversa. ‘Como andam suas economias, desde que nos vimos pela última vez?’ ”

” ‘Paguei a mim mesmo todos os meses’, respondi, ‘e empresto meu dinheiro ao dono de uma gráfica, amigo da escola. Ele compra papel em maior quantidade no início do mês, usando meu dinheiro, e com isso obtém grande economia. Dividimos a diferença do que custaria para ele comprar o papel em pequenas quantidades várias vezes ao mês. Ele economiza na compra e eu ganho uma parte dessa economia.’ ”

” ‘Muito bem. E o que tem feito com esse rendimento?’ ”

” ‘Comprei um terno novo e um relógio de pulso. Em breve vou comprar um carro para passear pela cidade.’ ”

” Jorge começou a rir: ‘você está consumindo os filhos das suas economias. Como vai fazer eles trabalhar para você se os consome logo que nascem? E como esses vão gerar mais filhos, se nem bem entram em seu bolso e já são trocados por inutilidades? É preciso juntar um exército de trabalhadores que gerem mais renda para você. E só depois, poderá gastar parte dos rendimentos sem sentir remorsos.’ E não falou mais nada até o final do almoço.”

“Passei muito tempo sem encontrar o velho Jorge. Alguns anos. Um belo dia, lá estava ele junto de vários garotos na praça. Contava histórias de quando era mais novo, falava como era feliz vendo aqueles pedaços de madeira se transformarem nos mais belos móveis. Cheguei perto e ele me apresentou aos meninos. Disse: ‘estão vendo este belo homem? Um dia ele foi um dos meus pequenos, como vocês. Olhem como ele está bem vestido, parece bem alimentado e bastante feliz. Esse é o futuro de vocês, se estudarem, trabalharem e aprenderem o que vou lhes ensinar. Agora, vão brincar um pouco, que vocês ainda são crianças. Me deixem conversar um pouco com este grande amigo.’ ”

” ‘E então garoto, conseguiu enriquecer tanto quanto desejava?’ Falou com um grande sorriso no rosto.”

” ‘Não tudo o que desejava ainda, mas já reuni um pequeno exército de trabalhadores, que por sua vez geram outros. Estou fazendo o dinheiro trabalhar por mim. Em pouco tempo, esse dinheiro gerará renda suficiente para pagar todas as minhas contas. Neste momento, acredito poder me aposentar do trabalho que tenho hoje. Vou então me dedicar apenas em fazer meu patrimônio crescer, enquanto aproveito a vida e ajudo os mais necessitados.’ Jorge notava a felicidade em meu rosto. Enquanto eu contava meu progresso, ele não conseguia disfarçar a satisfação de ver suas lições gerarem frutos. Ele sabia que eu faria o mesmo que ele um dia. Faria o que estou fazendo agora, amigos. Passaria adiante o que aprendi, para quem realmente deseja aprender.”

” ‘E o conselho dos publicitários ainda te serve para algo?’ O velho Jorge quase ria enquanto se lembrava de como perdi rápido minhas primeiras economias, no negócio da lanchonete. ‘É bom para fazer publicidade de meus negócios’, respondi sabendo o que ele esperava ouvir.”

” ‘É isso aí meu jovem. Você aprendeu a viver com menos do que ganha, aprendeu a se aconselhar com quem trabalha e tem experiência no que faz e finalmente aprendeu a fazer o dinheiro trabalhar em seu lugar. Aprendeu as três coisas mais importantes que alguém pode saber sobre o dinheiro: como adquirir, como guardar e como usar. Aprendeu ainda uma outra coisa importante, como aproveitar. Pois vejo que se dá a alguns luxos, como esta bela roupa, por exemplo. E isso é importante, por que de nada adianta aprender as três leis básicas e não saber a quarta. Se não aproveitar a vida enquanto vive, você vai aproveitar quando?’ ”

“E foi assim que o velho Jorge, sabendo que eu havia aprendido a ganhar meu próprio dinheiro, economizar e fazer ele crescer, me convidou a ajudar a administrar seus negócios. Me mostrou todos seus investimentos, me contou a história de cada um dos imóveis que possuía, todos alugados e rendendo um bom valor todos os meses. Nunca imaginei que ele possuísse tantos imóveis, ou que fosse sócio de tantas empresas. Trabalhei anos para ele e como havia aprendido as três leis do dinheiro, fiz o patrimônio dele crescer muito nos anos que seguiram. Um dia, como fatalmente acontece a todos nós, o velho amigo e tutor partiu desta vida.”

“Quando o advogado fez a leitura do testamento, este continha o que todos esperavam. Ele me incumbiu da tarefa de criar uma fundação para o ensino de crianças carentes. Essa fundação seria mantida com os recursos gerados por seus ativos financeiros, os aluguéis de seus imóveis e os lucros das empresas em que era sócio. Deixou ainda 10% de tudo o que possuía como herança para mim, em retribuição ao trabalho que fiz desde que comecei a trabalhar com ele. Nesta época, já possuía alguns imóveis e tinha diversos outros investimentos próprios, mas os 10% que ele me deixou praticamente duplicaram meu patrimônio.”

– Então, você ainda contou com a sorte de herdar uma fortuna do velho? – Um dos amigos perguntou, ainda sem acreditar em tudo o que havia escutado.

– Sorte! – exclamou Ricardo como um trovão. – A sorte não perde tempo com quem não está preparado. Foi sorte eu querer prosperar, desejar ardentemente me tornar um homem rico? Vocês não levaram em conta que passei 4 longos anos economizando, aprendendo a investir? Esqueceram que perdi tudo o que tinha conquistado e tive que recomeçar por que ainda não sabia algumas coisas básicas, como ouvir conselhos de quem entende, não de qualquer um?

– É verdade, – disse outro amigo – mas você teve uma grande força de vontade para continuar, mesmo depois de ter perdido tudo.

– Força de vontade coisa nenhuma. – Ricardo falava em voz alta. – Eu sabia exatamente o que queria. Não ia deixar um erro cometido por falta de conhecimento pôr tudo a perder. Se eu digo que vou fazer algo, vou até o fim, não desisto no primeiro problema que aparece.

– Pode ser, mas isso não deve ser tão simples assim – disse um terceiro ouvinte – Se fosse tão fácil, não haveria riqueza para todo mundo.

– E por que não? Quando uma empresa constrói um prédio, o dinheiro que ela investiu desaparece? Não. O prédio pronto vale mais do que a empresa investiu. E os terrenos em volta, não ficam valorizados também? E os trabalhadores que construíram o prédio, não ganharam parte do dinheiro gasto na construção? Então, as riquezas estão sempre sendo criadas, não são limitadas, são infinitas.

– Certo, Ricardo – agora Marcelo parecia ter saído do transe em que entrara, desde que o amigo começou a contar a história de sua vida. – O tempo está passando, chegamos onde estamos, sem um centavo guardado, sem nada para deixar aos filhos. O que podemos fazer?

– Amigos, – começou Ricardo, novamente em seu tom de voz habitual – vocês precisam aprender e colocar em prática a primeira lei do dinheiro. Uma parte de tudo o que ganham pertence exclusivamente a vocês. Pelo menos 10%.

“Aprendam, ganhem, gastem, mas antes, separem pelo menos 10% para vocês. Em muito pouco tempo vocês verão suas árvores de dinheiro começar a crescer. E vão se sentir estimulados com isso. Vão ter mais vontade de trabalhar, o que fizerem vai render mais, e serão melhor recompensados por seus esforços. Assim, vão conseguir ganhar mais, e em conseqüência, conseguirão economizar mais.”

“Aprendam a fazer o dinheiro trabalhar para vocês. Há muitas possibilidades diferentes para se fazer isso, estudem e descubram quais métodos funcionam melhor para cada um de vocês.”

“Assegurem uma renda para o futuro. Ele vem para todos. Um dia chegará em que vocês não conseguirão mais trabalhar como fazem hoje. E o dinheiro ganho com seus trabalhos já não será suficiente para manter seus padrões de vida. Cuidem do seu dinheiro. Taxas de rendimento muito altas podem ser armadilhas como a que eu caí quando investi em uma lanchonete sem conhecer o funcionamento dela. No caso do nosso futuro, um retorno menor é preferível a um risco maior. Quando já estivermos velhos, pode ser impossível nos reerguermos de uma grande queda. Protejam a família caso aconteça algo com vocês. Há diversas opções de seguros disponíveis, com custos mensais bastante em conta.”

“Peçam conselhos de quem conhece o assunto que vocês querem aprender. Os conselhos são dados de graça, escolham quais vale a pena guardar e quais não. Se querem saber sobre dinheiro, peçam a quem sabe como fazer ele trabalhar, não para quem sabe apenas como gasta-lo.”

“Aproveitem a vida durante toda a caminhada. Não sejam sovinas nem tenham medo de gastar o que ganham. Mas lembrem-se sempre de separar a parte de vocês primeiro. O resto do dinheiro deve ser usado para adquirir tudo que suas famílias merecem.”

Alguns dos amigos não entenderam nada do que Ricardo havia falado. Não tinham imaginação suficiente para acreditar que realmente existe um mundo de riquezas infinitas, disponíveis para qualquer um que quisesse possuir parte elas. Um segundo grupo achava que os ricos tinham o dever de dividir suas fortunas com quem tinha menos, como se isso pudesse resolver o problema. Mas o terceiro grupo de amigos tinha os olhos brilhando. Haviam descoberto uma nova realidade. Eles entenderam que o velho Jorge aparecia nos lugares onde Ricardo estava, de tempos em tempos, apenas para observar seu crescimento. Ele estava observando Ricardo sair da escuridão através de seus próprios esforços. Quando Ricardo descobriu o caminho, seu lugar já estava reservado. Ninguém podia ocupar o lugar dele sem estar preparado para a oportunidade.

Esses últimos foram os únicos que continuaram visitando Ricardo com regularidade. Eles aprendiam com as experiências do amigo. Ouviam suas histórias com atenção e discutiam em grupo o que teriam feito se acontecesse com eles. Ricardo ajudava os amigos a investir o que conseguiam guardar e dava dicas sobre negócios que estes desejavam iniciar.

Mas tudo isso é só história. O momento decisivo na vida desses homens ocorreu quando eles entenderam a maior das verdades sobre o dinheiro.

Uma parte de tudo que você ganha pertence exclusivamente a você.

10 pensamentos em “Amigo Rico: Capítulo 2”

  1. Fabrício,

    Acho que seu livro esta em um caminho muito bom, adorei a desenvoltura e, estou anciosa para ler mais.

    Beijão
    Camila

  2. Caro,

    tenho lido seu blog, e gostei dos dois primeiros capítulos do seu livro.
    Terá continuidade?

    Desde já parabéns!!

    Abraços
    Emerson

  3. fabricio,

    Li a primeira parte de seu livro muito bom, continue assim pois seu blog esta se tronado muito famoso na roda dos universitários, ao menos onde estudo FATEC.

    eu li Pai rico Pai Pobre uma ótima leitura se interessar.

    Abraço

    Bruno

  4. Fabricio,
    Agora entendi o caminho das pedras…
    Adorei o desenrolar da sua história, muito bem explicada, PARABÉNS!!!
    Continue a escrever pois estou achando o máximo.
    Um abraço.
    WALTENCYR

    1. Exatamente isso Rebeca. Apesar dos capítulos seguintes serem mais originais. Estes dois que escrevi no site ainda são da época onde estava “aprendendo a escrever” 🙂

  5. 07/03/11
    Olá,
    A sua história tem uma linguagem tranquila, envolvente, você não se perde em detalhes, mas consegue dar a beleza que o texto precisa. O tema é muito bom, estamos sempre precisando saber lidar com o que ganhamos, afinal esse mundo capitalista que vivemos ,nos engole um pouco a cada dia.O seu livro é uma tábua de salvação esta ai para todos

  6. Tenho interesse em adquirir seu livro. Aguardo instruções de como fazer.

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